J.

Desculpa por ser insistente e teimoso e impaciente. Desculpa por ser rude contigo. Desculpa por parecer frio e indiferente muitas vezes. Desculpa não te dar ouvidos e reclamar de ti. Peço desculpa desta forma agora porque raramente peço desculpa, e porque tu mereces mais do que aturar estas coisas. E peço desculpa por provavelmente ir fazer tudo isso outra vez.

 

E obrigado. Obrigado por seres tão oposto a mim. Obrigado por seres paciente, e por nunca seres rude comigo. Obrigado por seres sempre tão gentil. Obrigado por me dares ouvidos sem reclamar mesmo quando já não estou a dizer nada de jeito. Agradeço-te desta forma porque raramente agradeço, e porque tu mereces muito mais do que um obrigado. E agradeço por provavelmente vires a lidar com estas coisas outra vez.
AA010

A Pequena Sereia, em Copenhaga.

Anúncios

Sangue de Andorinha

Ninho de andorinha.

Hoje tenho sangue nas mãos.
Passo a relatar como tal sentimento, que é nada mais do que um sentimento, veio a ser.
Com a chegada da primavera, vieram as andorinhas. Isto já há um par de meses, agora o sol e o vento envolvem-nos com o bafo quente do verão. Acontece que um certo espécime decidiu erigir a sua fortaleza precisamente por cima da janela da minha cozinha. Não demorei muito a dar conta, escutando os voos rasantes que a mãe andorinha fazia, a metros de mim, durante os meus momentos culinários. Os piares esporádicos dos pássaros podem ser um dos simples prazeres da época, mas o mesmo não me cruzou a mente quando me apercebi do pequeno amontoado de desperdícios fecais que gradualmente havia surgido no parapeito da janela. Com assuntos de maior prioridade a ocupar-me a mente, ignorei.
Hoje, já o sol se tinha posto, decidi tomar acção.
Peguei numa vassoura, abri o vidro por baixo do ninho, e cutuquei a massa arredondada com o cabo. Era bem mais rijo do que eu tinha imaginado, e pó caiu por cima da minha cabeça. Estúpido.
Fiz deslizar o vidro e abri o outro lado, de modo a estar afastado da trajectória de queda. Segunda tentativa. Desta vez atingi o ninho com mais força, uma e outra vez, até que um grande pedaço lateral se partiu e caiu no solo, sete andares abaixo. Então parei.
Estava um pequeno pássaro agarrado pelo bico à borda destroçada do que tinha sido minutos antes o seu abrigo do mundo. As suas asas eram pequenas, as suas penas eram ainda penugem disforme, e debatia-se desesperadamente por escapar ao infinito abismo por baixo.
Tinha eu tomado aquela atitude sem grande consciência, esperava encontrar ovos, não me tinha ocorrido a possibilidade de vir a ver pânico e agonia nuns olhos negros minúsculos de um ser que nunca faria tanto como eu para merecer a morte, de qualquer perspectiva moral que se possa ter.
Fiquei num estado semelhante ao de choque, por minutos que terão provavelmente sido segundos, a fixar o pobre bicho, sentindo a sua dor como se no seu lugar me encontrasse.
Subitamente aconteceu o inevitável. A força vacilou, o bico escorregou, e a jovem andorinha caiu para o oblívio, a sua queda desviada pela brisa de tão leve que era o seu corpo. Em segundos desvaneceu-se do meu campo de visão, e o meu estado manteve-se inalterado. Olhei para o nada, senti o ar fresco da noite. Virei-me para o ninho, onde não consegui discernir formas, nem quis. Pestanejei, afastei-me do exterior, fechei a janela. Não queria ter visto aquilo, a minha mente não estava preparada. Como pude eu destruir algo tão frágil e inocente sem sequer considerar os possíveis resultados?
Hoje senti aquilo de que a minha geração e toda sociedade tem falta, nas nossas vidas comodamente frias, pré-fabricadas e alheias ao valor da vida e das coisas. Um misto de remorsos, compaixão, medo e dúvida, do que consigo distinguir no momento em que escrevo. É um sentimento que evitamos, por nos lembrarem do quão cruel pode ser a existência, o quão vão pode ser tudo o que nos é precioso, o quão insignificante é tudo aquilo a que demos e damos significado.
Com todas as dúvidas que a minha patética condição existencial impõe, arrisco afirmar que esse raro sentimento é nada mais nada menos que simples e pura humanidade.

A aldeia de Penas Róias

A aldeia de Penas Róias.

Câmaras Antigas

Praia de Labruge

Praia de Labruge

Já por mais do que uma vez que em conversas quotidianas, ao comentar o meu gosto por fotografia analógica e referir que câmaras possuo, me foi sugerido comprar uma câmara analógica super-XPTO 9000, porque consegue fotografias com uma definição daqui a Neptuno, e só custa umas pouquíssimas centenas de euros.

Canon ELAN. Sim, é de rolo.

Sim, é de rolo.

A isso respondo sempre que câmaras profissionais são para fotógrafos profissionais, coisa que eu não sou nem aspiro a ser, ao contrário de uma exagerada parte dos utilizadores no Facebook, e que caso estivesse interessado em caminhar nessa direcção, usaria uma câmara digital, que tem evidentes vantagens práticas para trabalho.

Para muitos amantes da fotografia analógica pode parecer ingénuo, ou talvez desrespeitoso, ou outra coisa qualquer, dependendo da pessoa que mandar a sua para a caixa.

Até 0,05 cavalos.

Até 0,05 cavalos.

Exponho a questão com uma simples analogia. Muitas crianças pequenas gostam de brincar com carrinhos.
A intenção deles não é conduzir, nem cruzar a meta em Dakar. É simplesmente brincar.
Da mesma forma, fotografar para mim é uma brincadeira, algo que faço pelo mero prazer de fotografar e para me deliciar depois com os resultados. Gosto de tirar fotografias analógicas que se note que são analógicas e que sejam bonitas por si, quem não compreender isso que nem se atreva a usar Instagram.

Dizer-me para comprar uma super-mega-hiper SLR do fim dos anos 90 por uma exorbitância monetária para ter fotografias mais nítidas é um pouco como sugerir a uma criança que se ponha ao volante de um automóvel, porque assim vai mais rápido.

Eu gosto das minhas fotografias como elas são agora. Quanto à câmara, será assim tão reprovável que a queira antiga?
Apresento orgulhosamente a estrela do meu arsenal, a Minolta Hi-Matic G.

Minolta Hi-Matic G

Minolta Hi-Matic G

É de 1974, e peca apenas por ter velocidade e abertura limitadas ao modo automático, mas tem-me servido maravilhosamente na minha descoberta do Mundo através do negativo.
E é linda.

Que interessa isso? — questão automática. Simples. Se fotografar é para mim um deleite não profissional, quero que a minha escolha de câmara expresse isso, que seja de utilização razoavelmente simples e que seja capaz de brincadeiras como duplas exposições e redscale. Convém que seja tão bonita e de aspecto especialmente retro como as fotografias que produz, porque ambos são elementos que tornam a experiência da fotografia analógica em tempos digitais tão deliciosa.

Kitsch

Escolher o nome e o endereço de um blog é um pouco como escolher o que desenhar na primeira página de um diário gráfico.
No meu caso, uma das primeiras ideias que tive, julguei-a brilhante: Peartree! obviamente, porque o meu último nome é Pereira, e traduzir para inglês dá-lhe um certo toque ironicamente kitsch.
Fosse a ideia brilhante, ou simplesmente pedante, uma coisa não era: original.
Infelizmente, Madame Peartree agarrou essa mesma ideia em 2007, publicou um post e nunca mais lhe tocou. Fabuloso. Mais um pobre endereço deixado ao abandono no infindável limbo que nos trouxe a Web 2.0.

Solução: peguei no meu outro apelido também e o resto é história.

Kitsch
Relógios em madeira numa loja em Madrid

Loja de brinquedos de madeira em Madrid

…Uma palavra que me saltou à mente com este processo, e que me deixou curioso.

Sendo eu apreciador de definições concretas, quis aprofundar a minha noção da palavra, portanto fui pesquisar, o que para qualquer mortal moderno, significa Google.

adj. m. e f. (Alemão)
Que é próprio de estilo, obra ou objecto artístico de valor estético inferior, mas normalmente segundo o gosto popular; que é de mau gosto.

fonte

Kitsch é muito mais do que uma forma (pseudo)erudita de dizer parolo, evoluiu desde os tempos da Revolução Industrial para a designação de todo um estilo. É a expressão da suposta ascensão da classe média, que com a produção em massa se tornou realidade devido à redução dos preços do que anteriormente era considerado luxo, isto claro sem questionar a qualidade.

Exemplos que não representam a minha opinião:

—Trouxe-te um Galo de Barcelos para colocares no centro da tua mesa de jantar do IKEA :D
—Hum… Obrigado, vai ficar muito… kitsch.

—Olha que adorável este quintal cheio de gnomos de porcelana de cores garridas e bochechas coradas. Tão kitsch!

—O edifício pode ser actual, mas eu acho que lhe devíamos meter uns azulejos típicos azuis e brancos, tanto betão cansa!

Existe uma sala assim na Casa da Música.

Existe uma sala assim na Casa da Música.

Kitsch é um estilo estético apreciável da mesma forma que são apreciáveis os filmes de terror dos anos 70.

É tão mau que chega a ser bom.

Penso, logo escrevo.

Fotografia de rolo tirada em Alvito, no Alentejo.

Fotografia de rolo tirada em Alvito, no Alentejo.

Olá, caro novo blog.
Venho por este meio expressar por palavras os meus devaneios mentais.

Porquê? – poderás perguntar tu – Porquê que de toda a peça neste puzzle cibernáutico tinhas tu de ser criado especificamente para dar metafóricos ouvidos às minhas palavras injustamente introduzidas no teu código?

A resposta é simples: gosto de escrever. Para além disso, a minha escrita anda a enferrujar.
Vejo “fizes-te” e afins todos os dias, portanto tenho de exercitar fora do meio social de, digamos, o facebook. Por outro lado, penso muito, e não conheço melhor método para organizar os pensamentos do que escrevê-los de forma coesa.
Por fim, mais um hobby, porque não?

Enquanto estudante de arquitectura, dou por mim a dizer, levianamente, como tantos colegas, que não tenho tempo para nada, o que muitas vezes se verifica, mas no último ano tenho vindo a descobrir que actividades extra-curso são essenciais à sanidade mental. Estou a falar a sério. Melhor ainda se forem criativas e construtivas, mas se preferires passar umas horas a jogar Minecraft já é alguma coisa (cuidado com isso, vai olhando pela janela para te recordares que o mundo descubificado ainda é real).
Com um blog tão desprovido de tema específico como este, as minhas outras paixões ganham ainda mais uma utilidade, que é servirem de assunto de escrita. Desafio qualquer um a criar um blog num ponto da sua vida em que não faz mais nada, pelo mero prazer de ter um blog. Estaria a implorar com todas as forças por uma dose magnífica de ‘bloqueio de escritor’. Seria inevitável.
Por outro lado, tenho a esperança que com o meu gosto por arquitectura, fotografia analógica, tecnologia, debate, activismo, viagens, livros, cinema e, mais uma vez, escrita, tenha um leque de temas amplo o suficiente para me esquivar da aterradora página em branco.
Cruzaria os dedos, caso tal atitude supersticiosa não ferisse as minha dignidade enquanto ser racional.

Acrescento que quanto à falta do Acordo ortográfico de 1990 no meu texto, tenho a dizer que não é por revolta que não o uso, a sua existência não me aquece nem arrefece, mas o meu computador ainda não o tem, e eu não tenho pachorra para debater-me com correcções automáticas, portanto mudarei quando ele mudar.
Quanto a isso, digo apenas: Antes escrever antiquado que escrever errado.

 

BrunoMCP